como se todo o mundo fosse periferia

Paulo é desprezado, apedrejado e “morto” no centro, na cidade.
Fora da cidade, a periferia, a fronteira,
apresenta-se como o lugar do cuidado, da saúde, da vida dedicada,
porque no limite saboreamos a semelhança.

O “sofrer muito” de que fala Paulo – a ponto de morrer – passou,
e passa, por trazer para o centro o que é próprio da periferia:
mais pontes que fronteiras,
mais cuidado e dedicação que cálculos e esquemas.

É essa paz que falta construir,
“sem vencedores nem vencidos”,
feita de pontes e laços de irmãos.

de pé, à minha altura

O texto “Actos dos Apóstolos” coloca-nos em posição desconfortável:
fomos expulsos de certos centros,
enviados, aceites, reconhecidos em periferias.
Assim aconteceu com Paulo e Barnabé
que na periferia reconhecem num frágil
fé para ser curado,
laços de vida, relação, amor, para viver de pé, para viver com sentido.

Reconhecer fé, relação, amor no próximo, no frágil, é colocá-lo de pé, é fazê-lo viver,
colocá-lo à minha altura, levantá-lo e olhá-lo como semelhante, como irmão
– sendo essa a forma mais eloquente de tratar Deus por Pai.

Essa é a morada de Deus:
aquele em quem acreditamos, vive, faz-se carne, habita, ressurge
em cada palavra, em cada gesto de vida oferecida
que garante sermos imagem e semelhança
do Deus que se faz semelhante.

luz

Tudo mexe nos textos de hoje,
a começar pelos personagens principais:
Espírito, Deus na construção de mim, no que me faz respirar e mover,
Palavra, dom de si, comunicação de si.
Tudo é envido, e o envio é sempre para outros, para o cuidado de outros.
É este o sentido da Páscoa que celebramos sempre que rasgamos o pão na mesa do encontro.

João apresenta Jesus como “luz”, que faz ver quem o enviou.
É essa luz que nos surge como última palavra sobre o túmulo,
sobre “os túmulos”, sobre as sombras, sobre os medos.
É esta luz que queremos que seja páscoa em nós,
que nos limpe o olhar para vermos Deus no outro,
e que ilumine o mundo com os gestos e palavras de quem busca o Deus da Verdade, da Bondade, da Beleza.

não digas que és Deus

“Se és o Messias diz!”
Esta exigência parece silenciar e desfocar a presença de Deus.

Desde que a obra da criação ficou nas nossas mãos,
desde que a Igreja nos ficou entregue – tema central da obra “Actos dos Apóstolos” -,
desde que somos deuses – como lembra o salmo 82 -,
Deus vive connosco como um amante ausente…

Tal como os amantes que se buscam, que se conhecem,
que confiam, que aceitam, que se dão,
assim com Deus, assim com o nosso “dono”, assim com o nosso Senhor, assim com Jesus.

Não quero que digas que és o Messias.
Não quero que digas que és Deus.
Permite, antes, que te encontre por detrás de tudo,
não permitas que me afaste de ti.
Tu que me conheces desde sempre e para sempre
ensina-me a conhecer-te melhor
e a reconhecer-te em todos os meus semelhantes.