por muito diferentes que pareçam

O livro de Jesus Ben-Sirá fala da Sabedoria como uma mãe que educa os seus filhos.
E todos – de certa maneira – reconhecemos o rosto dessa mãe na própria vida que dizemos que ensina,
na prudência, na ponderação, na paciência, no silêncio…
sentimos que sabedoria tem mais a ver com sabor do que com saber;
tem mais a ver com a construção de uma vida com sabor, com sentido
– qualquer que seja o contexto, qualquer que seja a crise -,
do que com receitas mais ou menos mágicas, pré-fabricadas, impessoais.
Os discípulos de Jesus, no texto de Marcos, parecem sentir-se proprietários de receitas,
parecem sentir-se proprietários do próprio “Yeshua”, do Deus-que-salva.
Mais uma vez, Jesus desfaz fronteiras
[é só por isto que ele morre; talvez pudéssemos dizer que é só “para” isto que ele vive:
se já nem fronteiras há entre Deus e nós, porquê haver entre irmãos?…].
Mais uma vez Jesus liberta,
e confirma que
“só amamos verdadeiramente o que não possuímos” [M. Proust].

[a propósito de Ben-Sirá 4,12-22 e Marcos 9,38-40]

que casa esta

Que Jesus habitasse numa casa algures em Cafarnaúm, estamos de acordo.
Se a casa era propriedade de Pedro, verosímil.
Quem a habitava, o texto de Marcos “pisca-nos o olho”.
Estando já em casa, Jesus chamou uma criança para o meio,
pô-la ao colo e disse-lhes que acolher uma criança “como esta”
era acolhê-lo a ele.
Em Mateus já tínhamos escutado que “quem vos recebe é a mim que recebe”,
mas no texto de Marcos falamos de uma criança “destas”…
familiar de um dos discípulos? órfã? pobre? necessitada?
o texto deixa em aberto.
O que parece certo é que Jesus é “outros”; o Yeshua, o “Deus-salva” é outros,
o Deus-que-salva é relação! e a linguagem da relação, da fé [“amen“: tornar firme, amarrar], dos laços
muda o centro de gravidade:
o conforto, a atenção, o afecto, o dinheiro, o tempo…
quero que “outros” tenham tudo isso por minha causa, “à minha custa”.
Essa é a linguagem do serviço,
essa é a linguagem da semente que germina quando morre…
essa é a linguagem
do que olha os outros,
do que serve os outros,
do que ama os outros
como tendo lugar em sua casa,
como tendo lugar na sua vida.

[a propósito de Ben-Sirá 2,1-11 e Marcos 9,30-37]

amar, cuidar, seguir

O embaraçoso diálogo entre Jesus e Pedro é revelador da relação entre
a verdade da nossa relação com Deus
e a relação de cuidado com o nosso semelhante.

O que dizemos a Deus – como o vemos a ele –
e o que estamos dispostos a escutar dele – como ele nos vê a nós –
projecta-se, revela-se na nossa relação com o próximo, com o semelhante;
relação que se inspira sempre na vida, no dom, na morte de Jesus,
como quem está disposto a “estender as mãos”, a oferecer-se.

A quem está disposto a ser dom Jesus acrescenta:
“segue-me”.

[a propósito de Actos dos Apóstolos 25,13-21 e João 21,15-19]

dos homens e dos deuses

No texto de “Actos dos Apóstolos” lemos o grande projecto da vida de Paulo,

a sua vocação de dirigir-se a improváveis.
“Assim como deste testemunho em Jerusalém – na maior cidade dos deuses –
darás em Roma – na maior cidade dos homens”.
Poder-se-ia concluir que esta é também a missão do cristão,
esta é também a missão da Igreja:
amar Deus a ponto de dialogar com ele e de revelá-lo aos outros,
e amar os outros a ponto de dialogar com eles e apresentá-los a Deus;
sem condenações, sem juízos,
sem militâncias que matam o diálogo e silenciam os outros
(como entre fariseus e saduceus).
Antes, com palavras-ponte, com gestos-ponte, que construam unidade entre semelhantes,
que construam unidade entre humanos – condição que o próprio Deus quis assumir para si -;
palavras-ponte e gestos-ponte que revelem a “glória de Deus”,
que nos revelem com vontade de viver
e com sede daquele que nos desafia a ampliar a nossa vida
em cada dia,
em cada Páscoa.
[a propósito de Actos dos Apóstolos 22 e João 17]