somos palavra

Lucas justifica a prisão de alguns apóstolos falando de “inveja”,
por parte do Sumo-Sacerdote e dos saduceus – a classe do templo.
Já a libertação fica a dever-se à urgência da Palavra ser dita.
O trânsito a que hoje Lucas nos acena define-nos.
Inveja, “in-vidia”, diz “não-ver”, e essa cegueira de não vermos o outro como semelhante “prende”, bloqueia…
É a palavra que trás à luz, que expande, que amplia a vida.
A Palavra de Deus não se encaderna. É Yeshua a Palavra de Deus; Yahweh-Salva é “a” comunicação de Deus.
A palavra é o eu que se diz, e o “eu” de Deus revela-se na nossa carne;
o “eu” de Deus diz-se na nossa linguagem. E isso enche-nos de alegria e esperança,
e de uma certeza de que Deus não condena o que é nosso,
antes, o escolhe para si e desafia a uma plenitude, ou melhor, a uma ausência de medida,
a uma desmesura, próprias do excesso da Palavra de Deus, próprias do excesso do judeu-marginal Yeshua…

próprias de quem ama,
de quem oferece a vida em cada gesto, em cada palavra,
de quem se identifica com um pão rasgado.

[a propósito de actos dos apóstolos 5 e joão 3]

coisas da terra

“se não acreditais nas coisas da terra,
como haveis de acreditar nas coisas do céu?”

A afirmação que João coloca na boca de Jesus
dá conta de uma dificuldade ímpar no cristianismo:
aceitar e integrar a incarnação de Jesus.
Que Ele seja Deus é um assunto que parece estar mais resolvido
do que a afirmação “fez-se carne e morou connosco”.
Apresenta-se assim como um Deus que não inventa regras de jogo,
que não muda a Constituição para ficar mais umas vidas,
um deus sem passos de magia nem efeitos especiais,
que não arranja uma política de segurança que lhe convenha…
antes, revela-se um deus que acredita que os humanos perdoam,
que criam, que amam…
um deus que insiste em ser humano, dissolvendo a maior fronteira,
questionando o valor de todas as fronteiras,
acenando a uma nova narrativa,
semelhante àquela que hoje escutamos na descrição sumária do livro “Actos dos Apóstolos”:
“tinham um só coração […] não chamavam seu ao que lhes pertencia, mas entre eles tudo era comum. […] gozavam da simpatia de todos […] e não havia ninguém necessitado, pois […] distribuíam a cada um conforme a necessidade que tivesse”.
Se percebermos com a vida toda estas “coisas da terra” que estão nas nossas mãos, não faltará tanto para “percebermos” o céu…

[a propósito de actos dos apóstolos 4 e joão 3]