em estreia absoluta: “minha filha”

Marcos abusa da imagem de Jesus-curador.
Se em Mateus e Lucas Jesus cura simplesmente, devolve o que falta,
em Marcos, Jesus cura de forma estranha, em dois tempos, com lama feita com saliva,
com uma energia que sai de si, com saliva… enfim, Marcos – o evangelista mais antigo,
possivelmente, o primeiro a narrar a novidade de Jesus de forma criativa –
apresenta Jesus como um curandeiro.
Quase todo o seu Evangelho descreve curas.
E se para nós hoje este dado causa um certo desconforto,
não era menos incómodo para Mateus e Lucas, que trataram de simplificar os gestos,
destacando o sentido da cura e não o “como-fazia”.
Marcos coloca-nos Jesus a devolver sentido, a iluminar a vida de quem o busca,
a curar verdadeiramente. A cura “biológica” dos personagens dos evangelhos vale o que vale;
na verdade todos acabam por morrer. A cura que se destaca é a cura “biográfica”;
viver com a certeza de que a vida se amplia,
que cada dia e cada passo podem ter um propósito, que nada nem ninguém é em vão,
que é na fragilidade do barro que o tesouro amadurece…

No episódio de Marcos 5,21-43
Jesus é descrito como alguém que anda de “margem para margem”:
entre “mais judeus” e “menos judeus”,
entre classificados e desclassificados,
com uma intenção de não deixar ninguém de fora, de incluir todos, puros e impuros…
Começa com um “chefe de Sinagoga” – nada menos –
que vence o natural bloqueio social e recorre àquele judeu marginal para que cure a sua filha, que está a morrer. O homem chama-se Jairo, que significa “ele trará luz”, “ele brilhará”.
Tendo Jesus acedido ao pedido, no percurso uma mulher doente e desiludida
encontra na proximidade com Jesus uma possibilidade de cura, uma possibilidade de sentido.
Marcos coloca Jesus a insistir em procurar por entre a multidão quem o tinha tocado e diz ter sido a fé a salvar.

“Fé”, do verbo hebraico aman, que significa “amarrar”, “firmar”,
traduziríamos nós – sem ousar – por “criar laços”…
fé é mais da ordem da relação, da amizade, do que da crença.

Laços que curam encontramos em Jairo – um pai cuidador –
e naquela anónima sem pai, nem “segurança social”…
[por isso Jesus a trata de maneira inédita e sem paralelo: “minha filha”!]

Jesus age entre duas personagens femininas,
entre uma idosa doente e uma adolescente moribunda…
o trânsito de Jesus acontece no cúmulo da fragilidade,
a sua “páscoa”, a sua passagem tem lugar no impreparado, no ameaçado, no provisório…
[só assim se saboreia a promessa de plenitude e de definitiva abundância]

Uma anónima doente há 12 anos pode bem simbolizar a Lei, tornada já impessoal,
sem nome, incapaz de curar, incapaz de dar sentido…
Uma adolescente com 12 anos a morrer, uma esperança que desfalece,
uma promessa de vigor que desiste…

A re-lação, esse processo de não desistirmos dos laços, a fé,
devolve saúde, devolve a vida na sua inteireza
e coloca-nos no lugar onde Jesus gosta de estar:
entre frágeis; entre semelhantes.