ainda bem que chegaste

A história de Jesus, nesta página de Lucas, apresenta-se como um problema de interpretação. 

Como lê-lo sem tiques moralistas? Como identificar personagens? Diríamos rapidamente que aquele nobre tirano e assassino é Deus? E aquela escolha aleatória de servos e distribuição de governos de cidades diz a nossa relação com Deus?
Habituamo-nos a fundamentar neste texto a condenação da preguiça e o louvor do esforço – de um esforço com uma linguagem comum à da banca… 
O que é feito do Jesus desconcertante da gratuidade que desarmava os fariseus? – pergunta o leitor.
Esta história é contada a discípulos – diríamos – despistados; aos discípulos que em vez de assumirem a gratuidade, o dom como construção desse novo e estranho Reino, esperam que Deus seja sempre dom e que os substitua… Esta “subida para Jerusalém” parece significar coisas distintas para Jesus e para a “comissão política”…
Esta história devolve-nos o protagonismo,
devolve-nos o centro na “História Universal da Gratuidade e do Dom”.
O dom como lugar de Deus, como revelação de Deus, como construção do Reino
é o nosso tesouro
que nós não queremos guardar no lenço dos cálculos, das desculpas sobre o estado do mundo ou sobre os nossos “adversários”.
– Senhor, é agora que vais decidir instaurar o Reino?
– Diz-me tu. Só estou à tua espera…
[a propósito de lucas 19,11-28]

Mas qual puro?…

O nome Zaqueu significa algo como “puro”, “justo”.
Claramente, Lucas quer colocar os seus leitores a sorrir desde o princípio da história…

Zaqueu é uma espécie de paradoxo sobre seguir Jesus.
O-Puro era chefe de cobradores de impostos.
O-Puro era chefe dos traidores que recolhiam os impostos do povo para o governo central de Roma.
O-Puro era chefe de uma data de gente com fama de roubar mais qualquer coisa para “arredondar” a “taxa imperial”.
O-Puro que era chefe de traidores e ladrões, de puro não tem nada…
E se os ladrões enriqueciam, quanto mais o chefe deles…
Era um rico, que poderia ter tudo mas – diz o texto – era o menor de todos. O que lhe faltava, o dinheiro não podia comprar.

O texto não fala em lado algum da humildade de Zaqueu na subida à “árvore de escalada engenhosa”. Um rico a correr e a subir a uma árvore – a ter que moralizar – é mais um excêntrico que um humilde…
Jesus olha o excêntrico. Jesus vê o extravagante ridículo. E o encontro com Jesus dá-se no meio da multidão, do ruído, dos equilíbrios de trapezista sem rede… O encontro com Jesus dá-se no meio de excentricidades.
[não tem que se dar só naquela oração que está programada para o ano que vem; não tem que ficar preso a situações ideais sempre a haver…]
O encontro com Jesus dá-se no concreto dos dias, entre corridas, acessórios, malabarismos, ruídos…
A decisão de Zaqueu, O-Puro, acontece em casa – lugar da desmesura, onde o amor não é medido, onde o amor é exagerado, onde a dádiva é desproporcinal. Tem lá Zaqueu riqueza para repor desta maneira o que roubou…

[lembremos o frasco de bom perfume partido aos pés de Jesus; lembremos os pés lavados com lágrimas e enxugados com cabelos… Em casa tudo é exagerado! Como desproporcional é o verdadeiro amor, sem cálculos, sem previsão de riscos…]

O sentido do nome Zaqueu percebêmo-lo no fim da história, tal como o sentido da vida nem sempre é possível compreender-se num dia, no presente.
No entanto esse sentido busca-se com as escolhas que faço e, sobretudo, com as minhas dádivas, com o dom de mim.

[a propósito de lucas 19]