quem queres curar hoje?

Neste breve encontro, Marcos diz-nos quem é Jesus para aqueles que o buscam.
Apresenta-nos a andar de terra em terra – da região mais sem-graça –
correndo o sério risco de ser tocado, de ser abordado, de ser incomodado pelos piores.
– ser tocado por um impuro significava ficar-se impuro –
A vontade de Jesus coincide com a vontade de quem busca,
pode bem dizer-se que a vontade de Jesus coincide com a vontade dos piores…
“Sim, quero” – são a proximidade, o diálogo, o toque que devolvem ao “impuro” a consciência de semelhante. 
Chega de impuros!
Chega de condenados!
Chega de culpados!
Chega de indignos!
No pormenor do “vai lá agora cumprir a lei” esconde-se a própria vontade 
de nem sequer condenar ou julgar os puros… 
(seria demasiado “ressabiamento” para um Messias)
Não se trata de dispensar os puros, nem de dispensar a Lei, 
trata-se de lê-la como um caminho onde cabem todos, 
onde cada semelhante pode conhecer e amar 
a diferença com que o outro, verdadeiramente, o enriquece.
Se a cura é tudo o que nos devolve a semelhança,
e se sempre que devolvemos semelhança curamos, como Jesus curou, 
o que faltará para que eu diga a quem ainda me falta perdoar:
“sim, quero! quero-te bem, quero-te feliz, quero a paz para ti”?
[a propósito de Marcos 1]

sempre a tempo

A missão de Jesus parece apresentar-se clara aos leitores de Marcos:
Jesus cura, e cura e volta a curar… Sim, Jesus devolve o que retira a unidade, 
devolve o que me afasta do meu semelhante, o que me afasta da relação.
– ao falarmos de “daimon” [figura que as mitologias antigas descreviam ser acima de homem, associada à ideia de destruição] interessa muito pouco perdermos tempo a descrever seres abstractos, figuras de estilo, como se com o nosso melhor amigo falássemos de meteorologia… falamos da minha “grandeza” que esmaga o outro, 
do meu egoísmo que esgota a minha vida, e a dos outros, em mim… esse é o “demónio” sem efeitos especiais, o meu “eu-em-circuito-fechado” que Jesus rebenta por dentro –
Não se pense que a missão de Jesus se lhe apresenta de forma óbvia, clarividente, imponderada…
Sendo semelhante a nós, 
tal como aconteceu com Samuel, que repetidas vezes se sentiu chamado 
e a escuridão da noite – símbolo de uma vida inteira e não de umas horas – 
impossibilitou a clareza da decisão,
a “oração retirada” de Jesus, o seu caminho de busca,
deixa-nos ver um Messias que em discernimento diário, dia-a-dia, passo-a-passo,
escolhe habitar uma terra condenada,
tocar gente condenada,
praticar hábitos condenáveis…
garantindo-nos que o “Deus da Lei do Amor” – assim se completa –
habita para lá do que eu julgo saber, do que condeno, do que já desisti…
O Profeta-Marginal Jesus vem gritar – naquela velha sogra de Pedro – 
que ainda vamos a tempo de servir, 
de curar o que nos impede de vivermos para os nossos mais próximos.
[a propósito de 1 Samuel 3 e Marcos 1]