Mas qual puro?…

O nome Zaqueu significa algo como “puro”, “justo”.
Claramente, Lucas quer colocar os seus leitores a sorrir desde o princípio da história…

Zaqueu é uma espécie de paradoxo sobre seguir Jesus.
O-Puro era chefe de cobradores de impostos.
O-Puro era chefe dos traidores que recolhiam os impostos do povo para o governo central de Roma.
O-Puro era chefe de uma data de gente com fama de roubar mais qualquer coisa para “arredondar” a “taxa imperial”.
O-Puro que era chefe de traidores e ladrões, de puro não tem nada…
E se os ladrões enriqueciam, quanto mais o chefe deles…
Era um rico, que poderia ter tudo mas – diz o texto – era o menor de todos. O que lhe faltava, o dinheiro não podia comprar.

O texto não fala em lado algum da humildade de Zaqueu na subida à “árvore de escalada engenhosa”. Um rico a correr e a subir a uma árvore – a ter que moralizar – é mais um excêntrico que um humilde…
Jesus olha o excêntrico. Jesus vê o extravagante ridículo. E o encontro com Jesus dá-se no meio da multidão, do ruído, dos equilíbrios de trapezista sem rede… O encontro com Jesus dá-se no meio de excentricidades.
[não tem que se dar só naquela oração que está programada para o ano que vem; não tem que ficar preso a situações ideais sempre a haver…]
O encontro com Jesus dá-se no concreto dos dias, entre corridas, acessórios, malabarismos, ruídos…
A decisão de Zaqueu, O-Puro, acontece em casa – lugar da desmesura, onde o amor não é medido, onde o amor é exagerado, onde a dádiva é desproporcinal. Tem lá Zaqueu riqueza para repor desta maneira o que roubou…

[lembremos o frasco de bom perfume partido aos pés de Jesus; lembremos os pés lavados com lágrimas e enxugados com cabelos… Em casa tudo é exagerado! Como desproporcional é o verdadeiro amor, sem cálculos, sem previsão de riscos…]

O sentido do nome Zaqueu percebêmo-lo no fim da história, tal como o sentido da vida nem sempre é possível compreender-se num dia, no presente.
No entanto esse sentido busca-se com as escolhas que faço e, sobretudo, com as minhas dádivas, com o dom de mim.

[a propósito de lucas 19]

a melhor notícia

O autor do livro de Jonas propõe-nos uma reflexão cómica 

– reflexão, na medida em nos sentimos espelhados, reflectidos naquele Jonas, 
apresentado como um “domador de deuses”. 
Neste personagem estamos nós e as nossas previsões sobre Deus, 
e as nossas previsões sobre os outros.

Nínive, a enorme cidade de Nínive, a cidade para muitos próspera, para outros tantos condenável 
– como todas as cidades de todos os tempos – foi perdoada. 
Jonas é que quase não perdoa Deus.
Deus ama, perdoa, acolhe os que dizemos serem os nossos piores inimigos, 
os que dizemos serem maus, levianos, não-praticantes, ateus, cínicos, 
os que nos tratam com indiferença…
A nossa missão não é condená-los em nome de Deus algum; 
nem tampouco amuar em nome dos homens e do mundo…
Jonas significa pomba; simboliza mansidão e invoca a história de Noé, 
onde a pomba anuncia a melhor notícia, recordando a finalidade da grande viagem, 
do “regresso a terra”…
Possivelmente, todos os dias escutamos, lemos, tropeçamos no “evangelho”, 
na “boa notícia”, na “melhor notícia”. 
O que nos é pedido é que – como “aves de esperança” – anunciemos a melhor notícia, 
que Lucas nos lembra no diálogo de Jesus com os discípulos: Deus é nosso Pai. 
Sermos da mesma família de Deus, amados, predilectos, herdeiros, é a melhor notícia, 
a principal razão da morte de Jesus, 
que, em tudo, dissipou fronteiras e construiu pontes entre semelhantes. 
Anunciamos a melhor notícia sempre que nos olhamos como semelhantes, 
sempre que nos cuidamos como irmãos.
[a propósito de Jonas 4,1-11 e Lucas 11,1-4]